30 outubro 2017

A POMBA

Espantoso país este quando dois anos depois dos acontecimentos se insiste ainda na fábula do «homem que ganhou essas legislativas». Teve o seu curso na altura, por entre os que têm digestões políticas mais difíceis, mas, mesmo como argumento despeitado para arremesso, já passou do prazo. O tal homem teve a sua oportunidade de formar governo, governo esse que foi rejeitado pela câmara de deputados, câmara essa que foi eleita precisamente nessas mesmas legislativas que ele havia «ganho». Para quem já não se lembre dessa rejeição, aí está abaixo o anúncio do resultado da votação. As eleições legislativas ganham-se quando se alcançam maiorias parlamentares absolutas. Quando não, fica-se em primeiro lugar - o que não é bem a mesma coisa (por exemplo, José Sócrates descobriu a diferença - significativa - entre uma coisa e outra de 2005 para 2009). A democracia parlamentar não tem as mesmas regras que um campeonato de futebol: neste sagra-se campeão aquele que no fim tiver mais pontos. Em eleições é preciso alcançar um número preciso de pontos (50%+1) para garantir a vitória. Isto não só já foi repetido milhentas vezes, como é mais fácil de perceber que o teste t de student. A insistência de pessoas como Helena Matos na fábula torna a discussão sobre o assunto cada vez mais naquilo que se popularizou designar ironicamente por jogo de xadrez com pombos: não só eles não sabem as regras, como se passeiam pelo tabuleiro e derrubam as peças, cagando-o, como no fim, enchendo o papo com a sua razão, batem asas e saem a voar mantendo que Pedro Passos Coelho ganhou as legislativas.

9 comentários:

  1. "Jogar xadrez com pombos"! hahaha! Nao conhecia, uma perola. Mesmo que nao seja sua a autoria, divulgar isto e servico publico e e uma das muitas razoes de este ser o melhor blog da blogosfera portuguesa.

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  2. Quantas vezes gostava de linkar o que por aqui vai. Sou um invejoso, gostava de o ter só prá mim :))

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  3. No Brasil essa expressão, xadrez com pombo, está sendo muito usada. Dizemos que o pombo ainda sai com o peito estufado, achando que tem razão.

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  4. Tem toda a razão Victor, vou reescrever essa parte para dar mais realce ao peito estufado de razão do bicho.

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  5. Sim, sim mas a verdade é que temos a elaborar em pleno, dia após dia, no Poder Legislativo e no Poder Executivo uma congregação de disciplinados, obedientes, mas bem alimentados, perdedores de eleições. Gosta ?.

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  6. Não tenho que gostar. Se lhe interessa, dir-lhe-ei que não votei em qualquer das formações que suporta o actual governo, mas o problema não é esse. Eu não gostei de todos os governos constitucionais dos últimos 41 anos da nossa Democracia. Agora eu não posso - caso queira considerar-me democrático - questionar repetidamente a legitimidade democrática deste governo como se lê repetidamente por aí (acabei de o ler). E poderia continuar a desenvolver a exposição mas, muito sinceramente, e aliás é sobre isso que é o poste, pelo conteúdo agressivo e assertivo do seu comentário, tenho a nítida sensação que estaria a preparar-me para jogar xadrez com um pombo...

    A si, a incumbência de me tentar convencer que estou errado...

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  7. Sempre se lê o Herdeiro com prazer e proveito, e este tiro em certo tipo de ave é um exemplo.

    Esta gentinha ou gentalha continua a fazer-se despercebida quanto ao funcionamento do sistema de governo parlamentar e do sistema eleitoral de representação proporcional. Mas tudo bem, a Oeste nada de Novo...

    O que me admira é como tipos que foram meus professores no mestrado de política comparativa do ICS, Rui Ramos ou Manuel Villaverde Cabral, ali andam em saudável convivência com estas luminárias nas páginas do pasquim direitolas.

    Bom, sendo o país como é, até é capaz de ser um factor de prestígio no currículo académico; um tipo gabar-se que estudou com uns sujeitos que escrevem no Observador.

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  8. Acontece-me muitas vezes mas agora já sei o que lhe chamar:
    Éristica, bela palavra.
    Obrigado

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  9. Não sei se a convivência é saudável. Já me diverti a ver Luís Aguiar-Conraria a meter-se com a ignorância desta "Pomba".

    E mesmo sendo saudável, não poderei assegurar que a convivência é inócua.Só para citar os dois nomes que refere no seu comentário, o conceito em que tenho os dois é hoje muito inferior ao que os tinha em 2014, quando o Observador começou a ser publicado.

    Se a intenção dos próprios e de quem os convidou era a que a colaboração das "sumidades académicas" "elevasse" a categoria da publicação, três anos e meio depois pode considerar-se que o efeito, na minha perspectiva, foi precisamente o oposto.

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